DA MINHA VARANDA - 7

 
      
 

Estou sentado à porta da minha varanda, voltada para nascente. Ouço, ao lado, no quintal da vizinha, o canto dos negros melros de bico amarelo que aqui nidificam. Curiosamente, eles adaptaram-se tão bem a este novo habitat que deixaram de ser aves migratórias para se adaptarem a uma vida mais sedentária. O seu canto destaca-se tanto, de entre os outros pássaros, que, carinhosamente, foram apelidados de Beethoven’s. E essa fama não é por acaso.

A este canto, juntam-se outras melodias, de outras aves, em notas e timbres diferentes que resultam numa sinfonia mal ritmada, mas bem executada e bem-sonante ao ouvido. A contrastar, ouço atrás de mim, o chilrear do meu novo hóspede: um “agapornis”, da família dos periquitos, também conhecido por “ave dos afetos” que me foi oferecido, há poucos dias. Este, dada a sua índole sociável, reclama, num tom irritante, a presença do dono, calando-se, quando se vê correspondido.

Entretanto, o movimento aparente do sol vai-se escapando para poente, trazendo de volta a sombra, tão desejada, nesta canícula do ano.

Na rua ouço vozes de crianças. São três jovens que rejubilam, pelo início das férias. Um “olá”, da varanda, foi correspondido por três “olá”. Fiquei com os olhos húmidos, pois eram três jovens, alunos da nossa catequese, até início da pandemia. A partir daí, tudo mudou… E não sei como será o futuro… Mudou a nossa vida, mudou a nossa forma de estar no mundo, mudou a forma de comunicar e de evangelizar, mudaram os nossos hábitos sociais, mudou tudo…

O mundo não é o mesmo, pois teve de se adaptar às novas realidades. A Igreja, na sua essência, será a mesma, porque tem, do seu fundador - Cristo - promessa de vida eterna, mas tem também de se adaptar às novas realidades e mal será, se assim não for! A maior dificuldade estará na nossa corresponsabilidade, falta de humildade, apego ao tradicionalismo sem sentido, clericalismo e pretenção de dar nas vistas. O remédio estará na aceitação da mensagem do Papa Francisco, quando refere que muita coisa tem de mudar, no futuro...

Nesta fase da vida, sonho com um futuro novo, mas sinto uma nostalgia do passado, porque não sinto a presença do presente, em vista ao futuro. Neste cantinho, sinto-me uma ovelha assustada, inserida num pequeno rebanho assustado. Onde estará o dinamizador do rebanho? Talvez, também assustado!...

Foram quatro meses em que, pelo menos, poderíamos ter rezado em comum, ou trocado impressões, através dos meios que temos ao nosso alcance, em sessões de vídeo conferência, como outros têm feito, com êxito.

Sinto no entanto, pela fé, a presença d’Aquele que prometeu “Estarei sempre convosco”.