DA MINHA VARANDA - 1

Nestes dias de clausura, impostos pela pandemia do Coronavirus, alguém me convidou a descrever, no site da paróquia, como é a vida de um padre, enclausurado, na sua casa.

Achei interessante a proposta e por isso aqui estou. É óbvio que não vou descrever a vida dos outros que desconheço, mas falo de mim, das memórias boas e más que me vão passando pela mente, do que sou, do que sinto, dos anseios e até do que fiz e não fiz.

Dos outros colegas, neste tempo de pandemia, pouco ou nada sei, a não ser dos mais próximos, com quem vou contactando, diariamente. É verdade que poderíamos estar todos mais unidos, vermo-nos uns aos outros, rezar juntos e falarmos dos novos problemas que nos esperam. Tudo isto seria mais que possível, através dos novos meios de comunicação – Skype, Zoom e outros. Não sei se alguém o faz, por aqui, somente com a família e alguns amigos.

 

Dia 17 de abril / 2020

Meio-dia. Dou comigo, mais uma vez, sentado na minha cadeira de secretária. É aqui que trabalho e que, por vezes, me deixo passar pelas “brasas”, depois de ajustar o grande encosto da cadeira. Evito o sofá, em virtude de ser muito macio, o que não é bom para a coluna vertebral.

A minha sala dá para o mundo: tem 3 janelas e uma porta de vidro. A porta dá para uma varanda que circunda parte da casa. É aqui que, nos dias de clausura, faço o meu passeio, dando mais de 3000 passos, o que perfaz cerca de 2 km. Tudo isto  é controlado pela aplicação do telemóvel. Daqui, vejo quem passa na rua, correspondo aos acenos que me fazem e ouço os passarinhos chilreando, nas laranjeiras da vizinha.

A paisagem que daqui se contempla é deslumbrante: a norte, em dias de céu limpo, vejo, a olho nu, as “ventoinhas” de Cebolais de Cima. De norte para nascente, lá longe, vislumbro terras de Espanha, como, Herrera de Alcântara, Cedillo, e já mais perto, em Portugal, Monte Fidalgo, Montalvão, Salavessa, mais a sul, o meu Marvão e Castelo de Víde.

Aqui, mesmo em frente, vejo o Tejo, calmo, preguiçoso e sem vida, porque lha tiraram e ainda não lha restituíram. Da sua poluição e recente limpeza, muitas inverdades se disseram, mas disso tratarei noutra altura. Do outro lado da minha varanda, vejo seis chaminés a vomitar fumo e vapor de água, para a atmosfera. O cheiro que dizem existir, não me incomoda, estou imune porque durante 46 anos, fui sendo vacinado, lentamente. A poluição atmosferica sinto-a na sinusite crónica e a poluição sonora, na perda de algumas frequências auditivas, sobretudo nos sons graves.

O meu dia é monótono. Por vezes, apetece-me falar, cantar, gritar… Tenho duas companhias: uma é o meu canário velhinho certamente mais idoso que eu, pois já tem 11 anos, o que é muito, para a vida de uma ave. Mas… o meu canário nunca me responde, nem canta comigo!

A outra companhia é alguém que me ouve sempre, mesmo falando muito baixinho e eu também tento ouvi-Lo. É uma companhia muito importante: é Jesus, no Santíssimo Sacramento que trouxe para minha casa, para não estar sozinho, na igreja paroquial que esstá encerrada, desde 19 de março. Está no quarto dos hóspedes, num pequeno altar improvisado. É ali que celebro Missa, todos os dias e é ali, que rezo a liturgia das horas do dia. Ele faz-me companhia, a mim, e eu faço-Lhe companhia, a Ele.

Nas circunstâncias atuais, faz-se o melhor que é possivel,  pois é este o espírito do Papa Francisco que há dias, recomendou, para as atuais circunstâncias, "criatividade, uma criatividae simples, inventada, todos os dias".

Hoje, fico por aqui. Na próxima semana, direi mais