DA MINHA VARANDA - X

   
         
   

Há vários dias que não me debruçava da minha varanda. Faço-o hoje, com saudade daqueles tempos em que me passeava pelas ruas que, daqui vislumbro.

Encostado à grade da varanda, apetece-me gritar e cantar um hino ao Bom Deus, por um dia tão bonito! De manhã, o nevoeiro, por aqui, só levantou pelas 10 horas, mas a partir daí, o ambiente tornou-se convidativo a sair de casa, como os bichinhos saiem das suas tocas, para espreitarem o sol.

Após o almoço, apeteceu-me sair de casa e ir pelo mundo, respirar o ar puro, ouvir os passarinhos, longe dos humanos, para cumprir as normas impostas pela DGS.

O desejo tornou-se realidade. Peguei o meu cajado de peregrino - adquirido em São Tiago de Compostela – de máscara, com boné de cortiça e parti, com intenção de não me afastar muito do povoado.

A necessidade de sair, dentro de mim, era um lenitivo imperioso para o espírito e ao mesmo tempo uma cura para o corpo, já entorpecido pelo longo tempo de confinamento devido ao mau tempo – bom para outros - que se fez sentir nos últimos 15 dias.

O local escolhido foi um velho caminho, entre hortas e pomares que nunca calcorreei, situado por detrás da Celtejo.

Cantando bem calado, parti. Pelo caminho, fui observando a beleza da natureza que aparecia estampada nos campos verdes, salteados de pimpilhos brancos e amarelos.

Pelo que vi, louvei a Deus, autor da natureza, tantas vezes destruída pela irresponsabilidade e ambição dos homens.

Do outro lado do caminho, via-se, a poucos metros, a azáfama que ia na grande empresa Celtejo: grandes camiões, carregados de enormes toros de eucalipto, faziam fila, junto da balança, onde eram pesados à chegada e à partida. No centro da azáfama, o destroçador, grande máquina que, em poucos minutos, migava, literalmente, a carga de um camião de 30 toneladas, em pequeninas fatias (estilha). O rodopio dos camiões e o silvo das empilhadoras era constante.

Agora, dou comigo a louvar a Deus por ter dado ao homem uma inteligência criadora capaz de conhecer, amar, na liberdade, o próprio Deus. É admiravel o trabalho do homem na transformação e aperfeiçoamento do mundo. Não fossem as traições que o próprio homem provoca na natureza, pela distruição e poluição, e teríamos um mundo melhor.

Já em casa, fiquei triste ao abrir a caixa do correio eletrónico: uma mensagem vem contestar e denunciar o comportamento de alguns párocos, no desrespeito completo das normas emanadas da DGS. O documento não vem dizer nada que não seja sobejamente conhecido: existem diversidades de critérios, neste e em muitos outros campos. E isto não acontece por ações virtuosas dos próprios, mas por falta de disciplina. Onde há fumo, há fogo. Sinto-me contristado e envergonhado, porque sinto na pele, a  pandemia que, há muito tempo me atormenta, enquanto vejo irresponsabilidades de quem devia ser o primeiro a dar testemunho.

Quem chama à atenção os infratores? E quem obedece? Calar e voltar a cara para o lado, como se nada fosse, é que não.