DA MINHA VARANDA - XI

   
         
   

  Quaresma - Tempo de Penitência

   
   

Junto à porta da minha varanda, ouvi com agrado, on line, um dos pregadores da Santa Madre igreja. Foi bom, mas confesso que não consegui ouvir o sermão todo. Aos 45 minutos o sistema nervoso entrou em paranoia, tendo necessidade de me ausentar por cerca de 15 minutos, para tomar um calmante de Paracetamol. No entanto, de regresso, ainda tive a sorte de ouvir os últimos 10 minutos da reflexão.

Em tempo penitencial de Quaresma, não está mal e não se podia esperar mais, em minha opinião.

Após a reflexão, passaram-me pela mente, várias memórias do passado, das quais refiro, apenas duas:

- Ainda sou do tempo em que o critério para avaliar os bons pregadores era o tempo que duravam os seus sermões e a faculdade que tinham em fazer chorar os ouvintes, sobretudo mulheres. Recordo, muitas vezes, por ocasião da Semana Santa ou dos Ofícios de Defuntos, ver mulheres desmaiadas, no meio de tanta choradeira. Hoje, não chorei de comoção, mas meus olhos lacrimejaram, pelo tempo fixo no ecrã do Pc.

- A segunda memória data dos anos 80 do seculo passado:

Vivia em Fratel, donde era natural, um santo sacerdote de nome pe António Aparício, já idoso, que serviu a diocese de Évora, por muitos anos e que após a sua aposentação, aqui se fixou com sua irmã Sara. Era um homem bom, de uma generosidade desmedida, bom conversante, com o dom da palavra e com um vozeirão que fazia estremecer as paredes da igreja, quando falava. Tinha todas as caraterísticas de um bom pregador que na realidade era, ao estilo do século passado. Confesso que o convidei poucas vezes para pregador das nossas celebrações, porque quando falava, esquecia-se de terminar.

Numa Quaresma dos finais dos anos 80, época em que ainda havia muitas confissões que ocupavam meia dúzia de sacerdotes por várias horas, convidei o sr padre António Aparício, para participar nas confissões de Alvaiade, em Vila Velha de Ródão. Como era hábito, no dia das confissões, celebrava-se também o Oficio de Defuntos. Juntavam-se as duas celebrações, porque os sacerdotes, já não eram muitos.

Distribuídas as tarefas pelos sacerdotes presentes, pedi ao sr pe. Aparício para fazer uma pequeníssima monição, antes de cada salmo, para sintonizar a assembleia com o sentido do que se cantava. O que aconteceu é que, logo no início do primeiro salmo, começou a falar… falou… falou… cerca de 45 minutos.

Eu e os sacerdotes presentes estávamos incomodados e tivemos de lhe dizer “Ó senhor pe Aparício, já chega” ao que ele respondeu, solenemente, com o seu vozeirão:

“Ó padres, eles têm de nos ouvir, porque muitos deles só cá vêm uma vez por ano, neste dia. E se quiserem salvar as suas almas têm de nos ouvir”.

De referir que, muitos homens, a meio da monição do sr pe Aparício, já tinham saído para a rua a fumar o seu cigarrito.

Faz-nos bem recordar as memórias do passado, porque, por vezes, repetem-se no futuro.

Este sacerdote amigo, faleceu, anos mais tarde, no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Castelo Branco, onde viveu alguns anos com sua irmã.

Paz às suas almas.