DA MINHA VARANDA - IX

 
      
 

 

Mais uma vez, na minha varanda. Ao abrir a porta que lhe dá acesso, uma baforada de ar fresco, mas poluído, fez-me recuar, tendo-me ativado automaticamente, as minhas maleitas de rinite crónica, com sintomas de espirros e nariz obstruído. Mas não arriscar, seria ficar condenado a nunca sair à rua.

Aqui, encostado ao gradeamento da varanda, assisto ao nascer do sol, no horizonte que, aparentemente, parece estar ao nível dos meus olhos. Gostaria de ser poeta, para saber descrever esta paisagem em que os tons vermelhos do sol se vão diluindo na luz do dia que vai nascendo. Deliciado com este espetáculo que ditou a morte de uma aurora para dar origem a um novo dia, veio-me à memória o Evangelho da Missa de hoje, dia do mártir São Lourenço, em que Jesus refere “se a semente lançada à terra não morrer, não dará fruto, mas se morrer, dará muito fruto”. Por analogia, se a aurora não morrer não nascerá um novo dia e do mesmo modo, se dentro de nós não morrer o ódio, o egoísmo e o pecado, não nascerá o amor, a humildade e a esperança de um nvo dia e de uma nova vida.

Mais tarde, já fora da minha varanda, ao manusear o meu smartphone, encontrei por acaso, via internet, um bispo a concelebrar a Eucaristia com vários sacerdotes. Nada de anormal (até gostei e acompanhei), não fosse o prelado se apresentar sem máscara. Vieram-me à memória as muitas perguntas dos meus paroquianos: “sr padre, por que é que alguns dos seus colegas de cidade, de outras paróquias e da televisão celebram a Eucaristia, sem máscara, enquanto o sr padre a usa, sujeitando-se a esse sacrifício? A quem assim me interpela, costumo responder ironicamente: “porque eles são mais santos do que eu e por isso estão imunes à bicharada”...

Na verdade, muitos celebrantes – bispos ou padres - perdem uma grande ocasião de dar testemunho. Será por questões de estética? Sei, por experiência própria, que é grande sacrifício celebrar e falar de cara tapada. E para os fiéis presentes não o será? E por que a Eucaristia é a renovação do sacrifício de Cristo na Cruz, não será ótima ocasião juntar o nosso sacrifício ao d’Ele?

Na opinião de muita gente que partilho, o celebrante sem máscara é elemento de alto risco de contágio, para os fiéis presentes, porque: tem de falar em voz alta, tem à sua volta os seus acólitos, tem na sua frente hóstias e partículas que vai consagrar e vai distribuir sob a sua respiração normal…

E por aqui me fico, a pensar: Bem prega frei Tomás!...